Fazenda sem regra clara entre herdeiros trava decisão

Aurora Salvieri
5 Min de leitura
Parajara Moraes Alves Junior

Segundo Parajara Moraes Alves Junior, consultor em planejamento tributário, sucessório e patrimonial rural, um problema recorrente na sucessão rural raramente aparece nas conversas sobre o tema: a governança familiar costuma ser tratada como assunto de empresa grande, quando é justamente nas propriedades de porte médio, sem estrutura jurídica sofisticada, que a falta de regra clara mais trava decisão.

Um exemplo hipotético ilustra bem essa dinâmica. Dois irmãos assumiram juntos a gestão de uma propriedade de grãos depois que o pai, fundador do negócio, reduziu a participação nas decisões diárias. Nenhum contrato formal definia quem decidia o quê: um cuidava da lavoura, o outro da comercialização, e por anos isso funcionou bem, até o momento em que precisaram negociar um financiamento maior e não conseguiram chegar a um acordo sobre o volume de dívida aceitável.

A propriedade que cresceu mais rápido que as regras internas

Enquanto a operação era pequena, dividir tarefas informalmente resolvia. Cada irmão sabia sua função e raras vezes havia divergência relevante o suficiente para exigir uma regra escrita. O problema apareceu quando a propriedade cresceu, a receita aumentou e as decisões passaram a envolver valores capazes de comprometer o patrimônio da família inteira.

Nesse ponto, o que antes era combinado verbalmente já não bastava. Sem um protocolo definindo limites de alçada, quem podia assinar contrato sozinho e quem precisava de aval do outro, cada decisão relevante virava uma negociação nova, desgastando a relação entre os irmãos.

Como a divisão de responsabilidades afeta decisões entre áreas?

A divisão informal de responsabilidades funciona bem até o momento em que uma decisão atravessa as duas áreas ao mesmo tempo. Financiar a expansão da lavoura afeta diretamente a estratégia de comercialização, e vice-versa, mas, sem um processo formal de decisão conjunta, cada irmão tende a tratar o próprio pedaço como território exclusivo.

O resultado, frisa Parajara Moraes Alves Junior, não costuma ser um conflito explícito, mas uma paralisia silenciosa: decisões importantes ficam paradas por semanas porque nenhum dos dois quer impor a própria posição sem um critério objetivo que justifique a escolha.

Parajara Moraes Alves Junior
Parajara Moraes Alves Junior

O que faltava não era vontade, era protocolo escrito

Os dois irmãos, nesse caso hipotético, chegaram a um acordo simples depois de formalizar por escrito três pontos: quais decisões cada um poderia tomar sozinho, quais exigiam aprovação conjunta e como resolver um eventual empate. Nada disso exigiu reestruturação societária complexa, apenas um documento interno assinado pelos dois.

Para Parajara Moraes Alves Junior, esse tipo de protocolo funciona porque retira a decisão do terreno pessoal e a coloca em uma regra combinada previamente, quando a relação ainda está saudável, em vez de tentar negociá-la no meio de uma divergência já instalada.

Governança não é para empresa grande

A resistência mais comum a esse tipo de organização vem da ideia de que regras formais soam burocráticas demais para uma propriedade familiar. Na prática, o oposto costuma ser verdadeiro: quanto menor a estrutura, mais cada decisão individual pesa sobre o resultado da safra inteira.

Um protocolo de governança, mesmo simples, cumpre o papel de proteger a relação entre os sócios tanto quanto o patrimônio da propriedade, algo que Parajara Moraes Alves Junior considera especialmente relevante em negócios rurais, onde família e empresa dividem o mesmo endereço e as mesmas decisões.

O acordo evita o problema que a lei sozinha não resolve

Nenhuma legislação societária substitui a conversa que define, entre os próprios sócios, como as decisões serão tomadas no dia a dia. A lei resolve disputa depois que ela já aconteceu, geralmente a um custo bem maior do que o de formalizar uma regra simples enquanto a relação ainda funciona. Deixar esse acordo para depois de um primeiro conflito sério, explica Parajara Moraes Alves Junior, costuma sair mais caro do que sentar antes, ainda em um momento de tranquilidade, para decidir juntos como cada situação futura será tratada.

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