Repressão a crimes ambientais na Amazônia empurra garimpeiros para áreas amapaenses de alta relevância ecológica.
O avanço das operações federais contra o garimpo ilegal na Amazônia está produzindo um efeito colateral que preocupa autoridades ambientais: parte dos criminosos expulsos de outras regiões passou a se instalar no Amapá. É o que apontam ações recentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que já realizou seis grandes operações contra a atividade ilegal no estado somente em 2026. Duas delas ocorreram em maio, atingindo áreas sensíveis como o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e o Vale do Jari. Mas por que o Amapá virou destino de garimpeiros que antes atuavam em outras partes da Amazônia? E o que isso significa para um dos territórios mais preservados do bioma? A resposta envolve dinheiro, fiscalização e uma disputa que atravessa fronteiras estaduais e internacionais.
O que motivou a migração do garimpo para o Amapá
Segundo dados divulgados pelo Greenpeace, o garimpo ilegal na Terra Yanomami caiu mais de 95% em 2025, resultado direto das operações do governo federal naquela região. Com a repressão mais dura em Roraima e áreas próximas, parte dos grupos criminosos redirecionou sua atuação para o Amapá e, em alguns casos, avançou até o Parque Amazônico da Guiana Francesa. Esse deslocamento geográfico do crime ambiental segue um padrão já conhecido em operações de segurança pública: quando a fiscalização se intensifica em um ponto, a atividade ilegal tende a buscar rotas alternativas com menor presença do Estado.
Outro fator que ajuda a explicar o movimento é puramente econômico. Nos últimos dois anos, o preço do ouro no mercado internacional praticamente dobrou, o que aumentou a rentabilidade da exploração ilegal e permitiu aos infratores investir em maquinário pesado, combustível, pistas clandestinas e até aeronaves. Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal apontam que parte do ouro extraído ilegalmente na Amazônia chega a mercados no Brasil e no exterior, incluindo compradores na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos, o que torna o combate ao garimpo também uma questão de rastreamento de cadeias produtivas internacionais.
As operações recentes e seus resultados
A mais recente ofensiva de grande porte, batizada de Operação Calha Norte, aconteceu entre os dias 12 e 17 de maio, na divisa entre Amapá e Pará, e resultou no desmantelamento de sete pontos de atividade ilegal. Segundo o Ibama, a ação gerou um prejuízo estimado em mais de R$ 6 milhões aos infratores e envolveu a destruição de 27 escavadeiras hidráulicas, três caminhões-prancha, dois aviões e milhares de litros de combustível. Em um dos pontos de apoio ao garimpo, foram apreendidas 441 unidades de explosivos, um indício de que os criminosos passaram a adotar métodos mais sofisticados, como o chamado garimpo de filão, que exige abertura de galerias subterrâneas.
A operação teve como foco os municípios de Laranjal do Jari, no Amapá, e Almeirim, no Pará, e contou com apoio da Polícia Federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Força Nacional e de forças de segurança do Pará. A coordenação institucional ficou a cargo do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia. De acordo com a Polícia Federal, o combate aos crimes ambientais segue como ação estratégica prioritária para 2026, com reforço de efetivo previsto para as próximas semanas dentro do Plano Amazônia: Segurança e Soberania.
O risco para uma das áreas mais preservadas da Amazônia
A repetição de operações na divisa entre Amapá e Pará reflete a preocupação do Ibama com uma região que abriga um patrimônio ecológico raro: o santuário de árvores gigantes da Amazônia, incluindo exemplares de angelim-vermelho que chegam a 88 metros de altura, o equivalente a um prédio de 30 andares. O avanço do garimpo ilegal nessa área ameaça diretamente essas árvores centenárias, além de contaminar cursos d’água com mercúrio e comprometer a integridade de unidades de conservação e terras indígenas.
O histórico recente mostra que a ameaça não é nova. No fim de 2025, a Operação Xapiri Karuanã já havia desmantelado uma infraestrutura aérea de apoio ao garimpo instalada a apenas um quilômetro da segunda maior árvore da Amazônia. A continuidade das ações em 2026 sugere que o enfrentamento ao garimpo ilegal no Amapá deve se manter como prioridade da política ambiental federal, ao mesmo tempo em que o estado passa a concentrar uma parcela maior da pressão criminosa que antes se distribuía por outras regiões da Amazônia brasileira.
Para o Amapá, o desafio agora é duplo: consolidar os resultados obtidos em operações como a Calha Norte e evitar que o estado se torne o novo epicentro do garimpo ilegal na Amazônia. A proximidade com a fronteira do Pará e com o Parque Amazônico da Guiana Francesa amplia a complexidade da fiscalização, exigindo cooperação entre diferentes órgãos federais e estaduais. O que está em jogo não é apenas a proteção de espécies raras, mas a manutenção de um dos ecossistemas mais importantes para o equilíbrio climático do planeta.
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