FIDCs superam a lógica da antecipação de recebíveis e passam a financiar a expansão de empresas de diferentes setores, afirma Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM

Aurora Salvieri
9 Min de leitura
ID CTVM

Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, que captaram R$ 57,6 bilhões em recursos líquidos em 2025, deixam de ser vistos apenas como ferramenta de capital de giro pontual para se consolidar como fonte de financiamento de projetos de crescimento em setores como agronegócio, saúde, tecnologia e infraestrutura

A ID CTVM acompanha, na indústria brasileira de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, uma mudança relevante na forma como empresas de diferentes setores utilizam esse instrumento, movimento que Rodrigo Balassiano considera significativo para a evolução do mercado de crédito estruturado. A ID CTVM, que presta serviços de administração fiduciária e custódia a FIDCs de diversos perfis, observa, segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, que o produto, historicamente associado à antecipação pontual de recebíveis para reforço de caixa, passou a sustentar decisões de financiamento de natureza mais estratégica, ligadas à expansão e ao crescimento das empresas cedentes.

Captação recorde reflete mudança na percepção sobre o instrumento

Os números da indústria confirmam essa trajetória. Em 2025, os FIDCs registraram captação líquida de R$ 57,6 bilhões, um dos maiores volumes entre todas as classes de fundos do país no período, resultado que consolida o instrumento como uma das principais alternativas de financiamento à disposição de empresas que buscam reduzir sua dependência do crédito bancário tradicional. Esse crescimento acompanha o amadurecimento regulatório trazido pela Resolução CVM 175, que ampliou a segurança jurídica e a padronização das estruturas de crédito privado no país.

Diferentemente do que ocorria em ciclos anteriores do mercado, quando o FIDC era procurado majoritariamente por empresas com necessidade recorrente de capital de giro de curto prazo, o instrumento hoje atrai companhias que buscam recursos para financiar projetos de médio e longo prazo, como a expansão de capacidade produtiva, o desenvolvimento de novas linhas de negócio e a reestruturação de sua própria matriz de financiamento.

Setores diversos recorrem ao FIDC para financiar crescimento

Companhias dos setores de agronegócio, saúde, educação, tecnologia, infraestrutura, logística, franquias e energia já utilizam FIDCs não apenas para antecipar recebíveis pontualmente, mas para financiar a expansão de suas operações, desenvolver novos projetos e otimizar sua própria estrutura de capital. Essa diversidade setorial contrasta com a concentração observada nos primeiros anos de consolidação do instrumento no Brasil, quando operações de crédito privado securitizado costumavam se concentrar em segmentos mais tradicionais do varejo e da indústria.

Para Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, essa ampliação de uso reflete uma mudança na própria forma como empresas e investidores enxergam os direitos creditórios que servem de lastro a um FIDC:

“Os recebíveis deixaram de ser apenas um fluxo de caixa futuro esperando para ser antecipado. Empresas bem estruturadas conseguem transformar esse patrimônio em uma ferramenta ativa de crescimento, usando o FIDC para financiar expansão, reforçar capital de giro de forma recorrente ou viabilizar um novo projeto, e não apenas para resolver uma necessidade pontual de caixa”, afirma o executivo.

Recebíveis passam a ser vistos como ativos estratégicos

Essa mudança de percepção sobre o papel dos direitos creditórios tem consequências diretas sobre a forma como uma empresa estrutura sua relação com o mercado de capitais. Uma companhia que passa a tratar sua carteira de recebíveis como um ativo estratégico, e não apenas como um passivo operacional a ser gerido, tende a planejar com mais antecedência a securitização recorrente dessa carteira, criando um relacionamento de médio prazo com o mercado em vez de recorrer a captações isoladas e emergenciais.

Esse planejamento de médio prazo também favorece a qualidade da relação entre a empresa cedente e o administrador fiduciário responsável pelo FIDC, já que operações estruturadas com maior antecedência tendem a contar com processos de due diligence mais completos e com covenants mais adequados ao perfil real de risco da carteira cedida.

Governança e originação ganham peso à medida que o uso se diversifica

A diversificação setorial dos FIDCs também eleva a complexidade da análise de crédito exigida de administradores fiduciários e gestores, já que cada setor apresenta particularidades próprias de originação, sazonalidade e comportamento de inadimplência. Um FIDC lastreado em recebíveis do agronegócio, por exemplo, exige uma leitura de risco distinta da aplicável a uma carteira composta por mensalidades do setor de educação ou por contratos de prestação de serviço no setor de tecnologia.

Essa maior sofisticação reforça a importância de administradores fiduciários e gestores especializados, capazes de adaptar seus processos de análise e monitoramento à natureza específica de cada carteira, em vez de aplicar um modelo único de avaliação de risco a estruturas com características tão distintas entre si. A ID CTVM, que já ultrapassou a marca histórica de R$ 53,48 bilhões em ativos sob administração e custódia, presta suporte a FIDCs com perfis de lastro bastante heterogêneos, o que exige justamente esse tipo de adaptação constante de processos.

Prazo mais longo das operações acompanha a nova finalidade do capital

Essa mudança de finalidade também se reflete no horizonte típico das operações estruturadas com essa nova lógica. Uma antecipação pontual de recebíveis para reforço de caixa costuma ter prazo curto, compatível com o ciclo operacional da empresa cedente, enquanto uma captação destinada a financiar a expansão de uma unidade produtiva ou o desenvolvimento de um novo projeto tende a exigir prazos mais longos, muitas vezes com mecanismos de amortização escalonada ao longo de vários anos.

Esse alongamento de prazo altera a própria forma como o FIDC precisa ser estruturado desde a origem, exigindo maior atenção a cláusulas de revolvência, a critérios de reposição de lastro ao longo da vida do fundo e a mecanismos de proteção que garantam a qualidade da carteira mesmo em ciclos econômicos menos favoráveis ao setor de atuação da empresa cedente. Gestores e administradores fiduciários que lidam com esse tipo de estrutura precisam, cada vez mais, antecipar cenários de médio prazo em vez de avaliar apenas a fotografia presente da carteira de recebíveis.

Perspectivas para o financiamento de crescimento via FIDC

Com a indústria de FIDCs consolidando sua posição entre as classes de fundos que mais captam recursos no Brasil, a tendência é que cada vez mais empresas passem a considerar o instrumento não apenas como uma solução emergencial de caixa, mas como parte estruturante de seu planejamento financeiro de médio e longo prazo. Para companhias de setores ainda pouco explorados por esse tipo de estrutura, entender essa mudança de uso pode representar uma oportunidade relevante de diversificar suas próprias fontes de financiamento e reduzir a dependência do crédito bancário tradicional.

Sobre a ID CTVM

A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.

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