Lucas Peralles analisa a epidemia silenciosa das decisões automáticas na alimentação 

Diego Velázquez
7 Min de leitura
Lucas Peralles

Lucas Peralles, nutricionista esportivo, questiona: “Quantas escolhas relacionadas à alimentação você consegue lembrar de ter feito hoje?” A resposta costuma ser menor do que a realidade. Antes mesmo do fim da manhã, muitas decisões já aconteceram quase sem percepção: tomar café enquanto responde mensagens, beliscar alimentos durante uma reunião, abrir um aplicativo de entrega por impulso ou comer apenas porque chegou determinado horário. Em muitos casos, essas atitudes não são resultado de uma decisão consciente, mas de comportamentos repetidos tantas vezes que passaram a acontecer de forma automática.

Diante desse cenário, Lucas Peralles, nutricionista esportivo com anos de experiência na Clínica Peralles, destaca que esse comportamento vem despertando cada vez mais atenção entre profissionais da saúde. Em 2026, enquanto crescem as discussões sobre saúde metabólica, comportamento alimentar e longevidade, também aumenta o entendimento de que muitas dificuldades relacionadas ao emagrecimento e à manutenção dos resultados não começam no prato, mas nos processos automáticos que influenciam as escolhas diárias. Entender como esses mecanismos funcionam pode ser mais importante do que conhecer mais uma dieta.

Por que nosso cérebro toma tantas decisões sem que percebamos?

O cérebro humano foi desenvolvido para economizar energia sempre que possível. Para isso, transforma comportamentos repetitivos em hábitos automáticos, reduzindo o esforço necessário para decidir cada ação do dia. Essa característica é importante para atividades simples, como dirigir um carro ou escovar os dentes, mas também influencia a forma como nos alimentamos. Com o passar do tempo, muitas escolhas deixam de ser conscientes e passam a acontecer apenas porque determinado estímulo foi repetido diversas vezes.

Ao analisar esse comportamento, Lucas Peralles explica que a alimentação sofre influência constante desse mecanismo. Comer enquanto trabalha, procurar um doce sempre que surge uma situação de estresse ou abrir a geladeira ao chegar em casa são exemplos de ações que muitas vezes acontecem antes mesmo que a pessoa reflita sobre a própria fome. Quando esses padrões permanecem por meses ou anos, eles passam a exercer um impacto significativo sobre a saúde metabólica, a composição corporal e a qualidade de vida.

Como o ambiente passou a decidir mais do que a fome?

A maneira como os ambientes modernos foram organizados mudou profundamente a relação das pessoas com a comida. Atualmente, alimentos altamente palatáveis estão disponíveis praticamente em qualquer lugar. Aplicativos de entrega oferecem centenas de opções em poucos minutos, supermercados utilizam estratégias para estimular compras impulsivas e até o ambiente de trabalho costuma favorecer o consumo frequente de lanches rápidos. Nesse contexto, a decisão de comer nem sempre nasce de uma necessidade fisiológica.

Além disso, Lucas Peralles ressalta que fatores como cansaço, ansiedade, excesso de estímulos e falta de pausas durante o dia tornam essas decisões ainda mais automáticas. Quando o organismo está sobrecarregado física ou mentalmente, ele tende a buscar alternativas que proporcionem praticidade ou recompensa imediata. Isso ajuda a explicar por que tantas pessoas afirmam saber exatamente como deveriam se alimentar, mas encontram dificuldades para colocar esse conhecimento em prática de maneira consistente.

O comportamento alimentar pode ser mais determinante do que a dieta?

Durante muitos anos, as discussões sobre alimentação concentraram grande parte da atenção nos alimentos permitidos e proibidos. Entretanto, o avanço das pesquisas sobre comportamento alimentar mostrou que compreender apenas o cardápio nem sempre é suficiente para produzir mudanças duradouras. A forma como cada pessoa decide comer, reage ao estresse, organiza a rotina e responde aos estímulos do ambiente influencia diretamente a capacidade de manter hábitos saudáveis.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Sob esse ponto de vista, Lucas Peralles acredita que desenvolver consciência sobre o próprio comportamento representa uma etapa fundamental dentro de qualquer processo de mudança. Identificar gatilhos, reconhecer padrões automáticos e perceber quais situações favorecem escolhas impulsivas permite construir estratégias mais compatíveis com a realidade. Dessa maneira, a alimentação deixa de depender apenas da força de vontade e passa a ser conduzida por decisões mais conscientes e sustentáveis.

É possível recuperar o controle sobre essas escolhas?

Embora os hábitos automáticos façam parte do funcionamento natural do cérebro, isso não significa que eles sejam permanentes. Assim como um comportamento foi aprendido ao longo do tempo, ele também pode ser substituído por novas rotinas quando existe repetição, planejamento e atenção ao processo. A construção de hábitos saudáveis acontece justamente por meio dessa reorganização gradual das decisões diárias.

Por essa razão, Lucas Peralles explica que pequenas mudanças costumam produzir efeitos mais consistentes do que tentativas de transformação radical. Reservar alguns minutos para fazer uma refeição sem distrações, organizar previamente os alimentos do dia ou identificar momentos em que a fome é emocional são atitudes aparentemente simples, mas que ajudam a interromper o piloto automático. Com o passar do tempo, essas novas escolhas tendem a se tornar tão naturais quanto os antigos hábitos.

A qualidade das escolhas começa antes da refeição

Quando a alimentação é analisada apenas pelo que está no prato, parte importante do processo acaba sendo ignorada. Antes de cada refeição, existe uma sequência de decisões influenciadas pela rotina, pelo ambiente, pelo cansaço, pelas emoções e pelos hábitos construídos ao longo da vida. São esses fatores que frequentemente determinam a qualidade das escolhas muito antes do primeiro alimento ser consumido.

Por fim, Lucas Peralles reforça que compreender o comportamento alimentar é um passo essencial para quem deseja construir resultados duradouros. Em um mundo em que as decisões acontecem cada vez mais rápido, recuperar a consciência sobre pequenas escolhas do cotidiano pode representar uma das estratégias mais importantes para fortalecer a saúde metabólica, melhorar a relação com a alimentação e desenvolver hábitos que realmente permaneçam ao longo do tempo.

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